
"Depois de dois quilos, sete meses e algumas gramas, voltei a ver-te.
Sentado distante com os olhar de éter e os lábios desgrudados, me tomou a mão quando passei como se não o houvesse visto.
Pressionou-me contra o seu peito e desviou os olhos dos meus. Nunca teve força para me olhar no fundo. Acho que te cegaria ver tanto.
Rezei, escrevi, viajei, conheci gente nova, bebi, tive crises alérgicas, mudei meu cabelo, me afundei em filmes, músicas, literatura, e nada, absolutamente nada te tirou de mim.
Depois dessas noites sem sono e desses dias mal vividos, você continua supondo que sou o que supostamente não sou, e desejando violar meu corpo.
Lembro que, teu cheiro ficava por dias na minha roupa, e não havia coragem suficiente para apagar teu último vestígio em mim.
O tempo correu lento, meus esforços se fizeram insuficientes, meu peito pulsava de dor e a necessidade de coisas surpreendentes aumentava a cada dia. A vida me cansava por nada acontecer, por estar sempre no mesmo eixo tedioso de ser.
Penso agora que te quis como distração para as minhas dores e para as minhas alegrias.
Ainda não tem fim, tem o repouso daquela voz drástica que me fazia insistir em você, que nunca vai ser o bastante para mim, vai sempre me deixar, e então se eu te tivesse em mãos me cansaria da tua falta de êxtase, já que amo demais, quero demais, sofro demais, bebo demais, me descontrolo demais, te quero demais. É tudo um transbordamento.
Eu olho para os outros tentando me achar, tentando querer sem me entregar ou me ausentar, já que ando tão extrema.
Com o tempo tudo vai diminuir, aumentar e se transformar. Só não acredito que algo que tenha vivido aqui vá um dia morrer em mim."
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